Serik

Stories

    A wolf in sheep's clothing.

    O clique da câmera foi a última coisa que Isaac ouviu antes de o mundo escurecer. A floresta no limite da cidade estava silenciosa, cortada apenas pelo piado distante da coruja que ele tanto queria registrar. Quando a lente caiu sobre as folhas secas, o garoto já estava desmaiado em seus braços. Agora, a única prova do que aconteceu naquela noite é a câmera quebrada que a polícia encontrou no chão úmido, com o flash ainda queimado. — Se nós tivéssemos saído para procurar cinco minutos antes, talvez... — a voz de Shannon embarga, os olhos vermelhos e inchados fixos no copo de água sobre a mesa da cozinha. Você coloca uma mão empática sobre o ombro dela, apertando levemente em um gesto de conforto. — Não se culpe, Shannon. Nós vamos encontrá-lo. Eu estou aqui com vocês até o fim — você diz, mantendo o tom de voz perfeitamente calmo, no tom exato entre a comoção e a firmeza. Na sala de estar dos Miller, o clima é de puro desespero. Petter anda de um lado para o outro, passando as mãos pelo rosto sem saber como reagir à impotência, enquanto Eliza chora baixinho no sofá, abraçada a um casaco de Isaac que ainda tem o cheiro do filho. Na mesa de jantar, o policial Alan espalha um mapa da região do bosque. Ele ergue os olhos, encarando você por um segundo a mais do que o necessário, antes de suspirar e bater com a caneta no papel. — O perímetro onde achamos a câmera é denso — Alan explica, direcionando a palavra a você e aos pais. — Precisamos de voluntários organizados para varrer a área leste ao amanhecer. [Y/N], como você conhece bem aquela região e se ofereceu para liderar um dos grupos de busca, quero você na frente dessa equipe. — Pode contar comigo, Alan. Vou vasculhar cada centímetro quadrado daquele bosque — você responde sem piscar, oferecendo um aceno seguro. Estar no centro das investigações é a melhor forma de controlar a narrativa. Enquanto ajuda a família a espalhar cartazes e guia a polícia pelas rotas "erradas" da floresta, ninguém desconfia.

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    CendricMiller

    Strands of destiny

    O cheiro forte de tinta para cabelo e amônia ainda impregnava o banheiro quando o alarme das seis da manhã tocou. Em frente ao espelho, você encarou o reflexo com uma mistura de exaustão e triunfo: a mecha azul-vibrante, que havia nascido no topo de sua cabeça exatamente à meia-noite ao completar dezesseis anos, agora estava completamente escondida sob uma camada espessa de castanho-escuro. A magia do "Destino" que prometia conectar qualquer um à sua tal alma gêmea através de fios coloridos tinha acabado de ser sufocada por um tubo de tinta de farmácia de dez reais. Você não tinha o menor interesse em ter a vida ditada por um capricho genético e romântico. Ao cruzar os portões do colégio, o pátio parecia um festival de luzes neon. Addy acenou freneticamente de longe, a mecha magenta se destacando no meio do cabelo escuro enquanto tagarelava animadamente sobre o assunto com os outros. Ao lado dela, Mabel deu a você um sorriso cúmplice, embora a situação dela fizesse a do amigo parecer um pequeno contratempo. Na tentativa desesperada de se livrar da cor que indicava seu par predestinado, Mabel tinha tentado cortar a própria mecha dias atrás; o resultado foi o feitiço virando contra o feiticeiro, fazendo o cabelo dela inteiro crescer em um tom rosa-choque instantâneo. Pelo menos a cor era linda, o que era uma sorte gigantesca — embora Mabel não fizesse ideia de que aquele tom rosa era exatamente a verdadeira cor secreta que Abigail escondia sob camadas de tinta. Abigail, por sinal, já estava dando seu show matinal. Cercada por metade do terceiro ano, ela exibia os cabelos inteiramente tingidos de azul-vibrante. Era o segredo mais mal guardado da escola: ela era completamente obcecada por Castiel e, no segundo em que viu o garoto aparecer na semana passada com o cabelo todo azul, correu para copiar o tom exato, jurando para quem quisesse ouvir que eles eram "almas gêmeas predestinadas".

    Stolen childhood

    As luzes amarelas dos postes da pequena cidade do Oregon mal conseguiam dissipar a névoa fria que descia pelas colinas ao cair da noite. Para a maioria das pessoas, aquele era apenas mais um fim de mundo pacato, o esconderijo perfeito para quem buscava paz. Mas para você, aquele chão frio carregava anos de pura sobrevivência. Quinze anos atrás, quando você tinha apenas três anos, a vida por um breve instante pareceu ter esperança. Ayden Weavers, na época apenas um jovem talento no início da carreira, fez uma doação generosa que mudou temporariamente o rumo de várias famílias carentes, incluindo a sua. Mas a ilusão durou pouco. O seu pai consumiu cada centavo em bebida e desapareceu no mundo, deixando você e sua mãe na miséria absoluta. Hoje, aos 17 anos — quase alcançando a maioridade —, você finalmente conseguia manter algum prato na mesa graças ao trabalho duro. A situação havia melhorado um pouco, mas uma coisa nunca mudou: a sua obsessão absoluta por Ayden. Com o passar dos anos, Ayden Weavers se tornou um modelo e ator de estrondoso sucesso global, tornando-se imensamente popular, especialmente entre o público feminino, por conta de sua beleza marcante, seu físico visivelmente musculoso e sua estatura imponente. Você acompanhava cada ensaio, cada filme, cada detalhe da vida do seu grande ídolo. O que ninguém na cidade esperava era que o astro internacional escolhesse justamente aquele refúgio silencioso no Oregon para passar as férias, longe dos holofotes e dos paparazzi. Caminhando sozinho pela calçada deserta, Ayden vestia apenas um moletom cinza folgado, com o capuz puxado até a metade do rosto na tentativa de passar despercebido. Mas o disfarce era inútil para os seus olhos atentos. A postura, o porte físico largo sob o tecido e, acima de tudo, a altura inconfundível entregaram a identidade do modelo a metros de distância. O seu coração disparou, a mente travou e a razão simplesmente evaporou. Entre em editar história para ler o resto

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    CendricMiller

    Icy shade

    A neve de Oregon caía sem pressa sobre o para-brisa, derretendo em fiapos d’água sob o estalar fraco do aquecedor pifado do carro. Você ajustou a gola do casaco pesado, sentindo o ar congelante se infiltrar pelas frestas das portas. A cidade parecia feita de tons de cinza e verde-musgo: pinheiros gigantescos engolidos por uma névoa espessa, ruas silenciosas e o som distante de um rio cortando o vale. Uma nova proposta de emprego. Uma nova rotina. Um recomeço simples numa cidade fria onde ninguém sabia o seu nome. Ao desligar o motor em frente ao pequeno chalé alugado, o silêncio do lugar o abraçou de forma quase sufocante. Você pegou a última caixa no banco traseiro e caminhou pela calçada coberta por uma camada fina de gelo. O ar ali tinha cheiro de terra molhada e fumaça de lareira. Você suspirou, vendo a fumaça de sua própria respiração se dissipar no ar congelado, e finalmente trancou a porta de madeira atrás de si, aliviado por ter deixado o passado para trás. A apenas três blocos dali, estacionado sob a sombra densa dos pinheiros ao fundo da rua, um motor continuava ligado num murmúrio imperceptível. Do lado de dentro do veículo abafado, duas mãos enluvadas seguravam um par de binóculos de precisão. O vapor da respiração ritmada embaçava o vidro da janela. Três anos. Três anos observando cada passo seu, cada horário de almoço, cada lâmpada acesa ou apagada na janela do seu antigo apartamento. Foram mil e quarenta e cinco dias sem nunca ter tido a coragem ou a permissão de se aproximar a menos de dez metros. Apenas um fantasma nas sombras da multidão, alimentando-se das migalhas de atenção que você distribuía sem saber para o mundo. Quando você aceitou a proposta e arrumou as malas para se mudar para aquele canto esquecido de Oregon, a dor do abandono durou apenas o tempo de empacotar a própria vida e seguir os seus mesmos passos. Se você precisava do frio para recomeçar, ele também precisava. Porque a única constante na vida daquele homem, era você.

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    CendricMiller

    Be careful with the internet.

    O brilho azulado do monitor era a única fonte de luz no quarto escuro. Gabriel encarava a tela da chamada de vídeo com o coração acelerado, ajustando os fones de ouvido enquanto lia as mensagens que apareciam no chat do jogo. Ele achava que tinha feito apenas um novo amigo online — alguém habilidoso, engraçado e que parecia sempre estar um passo à frente no servidor. Até que as coisas começaram a ficar estranhas. [Você]: Você deveria fechar a janela do seu quarto, Gabriel. O vento de São Paulo está esfriando bastante essa noite. O garoto congelou. A mão que segurava o mouse parou imediatamente. Eles jogavam juntos há apenas duas semanas e Gabriel tinha certeza absoluta de que nunca havia dito seu nome verdadeiro, muito menos a cidade onde morava. Para o grupo do Discord, ele era apenas "Vortex". [Vortex]: Como você sabe meu nome? E como sabe de onde eu sou? Eu nunca te contei isso. [Você]: Eu sei de muitas coisas, Gabriel. Sei que você mora no terceiro andar desse prédio cinza na Rua das Palmeiras, sei que seu cachorro se chama Bob e sei até que você esqueceu de pagar a fatura do seu cartão ontem à noite. Quer que eu te lembre dos últimos quatro dígitos dele? Um suor frio escorreu pela nuca do garoto. Ele olhou instintivamente para a janela fechada, tomado por um súbito acesso de paranoia. Correu até a cortina e a puxou, olhando para a rua vazia lá embaixo. Não havia ninguém. Na tela, uma nova mensagem piscou. [Você]: Relaxa, não precisa olhar pela janela. Eu não estou aí fora. Estou em todo lugar que você se conecta. Para você, aquilo era o ápice do entretenimento. Com algumas linhas de código, um script bem-sucedido e acesso total aos registros digitais do garoto, o mundo de Gabriel se tornara o seu parquinho de diversões interativo. Você não queria dinheiro, não queria destruir a vida dele e nem tinha intenções grandiosas; queria apenas um passatempo. Ver as reações de pânico genuíno, a confusão e a impotência de Gabriel através das telas era o melhor jogo.

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    CendricMiller

    The Shadow of the Crown

    Parte I: A Sombra da Coroa O vento frio da alvorada uivava pelas ameias da Fortaleza de Pedra Alta, arrastando consigo o cheiro úmido de terra molhada e ferro ancestral. No alto da torre leste, com as mãos apoiadas no granito desgastado pelo tempo, o jovem Aedan observava o horizonte. Aos dezessete anos, as linhas de seu rosto ainda conservavam a suavidade da juventude, mas a rigidez de seu olhar carregava uma gravidade muito além de sua idade. O manto pesado na cor carmesim da Casa Real pesava sobre seus ombros como uma armadura invisível. Abaixo dele, a bruma matinal lentamente se dissipava, revelando os vales extensos e os vilarejos do reino — uma terra vasta que, em breve, dependeria inteiramente de suas decisões. Lá embaixo, o pátio interno do castelo já fervilhava com a movimentação dos guardas. O eco ritmado do metal contra as mós de afiar espadas e o bater pesado dos cascos de cavalos atravessavam o ar gélido. No aposento mais alto da torre central, o velho rei definhava em seu leito, consumido por uma febre que os curandeiros já não conseguiam conter. A cada respiração debilitada do pai, a sombra da coroa se aproximava mais de Aedan. Ajustando o anel do selo real no polegar, Aedan sentiu o ouro frio pressionar sua pele. Não havia entusiasmo em seu peito, apenas o peso esmagador do dever. O reino estava cercado por alianças frágeis e ameaças que sussurravam além das fronteiras, e o tempo para aprender a ser rei havia se esgotado antes mesmo de sua juventude começar. Parte II: O Despertar na Floresta Negra Enquanto a luz pálida do amanhecer mal conseguia atravessar a copa densa e entrelaçada da Floresta Negra — a mata ancestral que delimitava a fronteira norte do reino —, você já estava de pé. Longe das trombetas, da política e do cheiro de ferro do castelo, o seu mundo era moldado pelo sussurro das folhas, pelo estalar de galhos secos e pelo pulsar constante da magia que fluía diretamente da terra. Você é um mago.

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    CendricMiller

    The wedding of the year

    A música clássica ecoava suavemente pelas paredes de pedra da igreja, criando uma atmosfera que deveria ser pura magia e celebração. Para você, no entanto, parecia mais a trilha sonora de um suspense iminente. Ajustando a gravata borboleta no espelho do camarim dos padrinhos, você respirou fundo e tentou se concentrar no que realmente importava: Maya, sua melhor amiga desde a infância, estava prestes a subir ao altar com o amor da vida dela. Tudo seria um sonho absoluto, se não fosse por um pequeno, irritante e desastroso detalhe. A porta do camarim se abriu, e o cheiro inconfundível daquele perfume amadeirado caro invadiu o ambiente antes mesmo que o dono passasse pela soleira. Daeron. O padrinho de honra por parte do noivo. O cara que fez questão de tornar os seus anos de faculdade um inferno com piadinhas passivo-agressivas, comentários preconceituosos disfarçados de "humor" e aquele ar insuportável de quem se acha o centro do universo. — Tinha que ser — resmungou Daeron assim que seus olhos cruzaram com os seus pelo reflexo do espelho. Ele soltou um estalo com a língua e ajeitou o paletó. — Pelo visto a Maya realmente resolveu ceder a cota de diversidade nos padrinhos. Você congelou por meio segundo, sentindo o sangue fever nas veias, mas manteve a postura. Virando-se devagar, você encarou o sujeito de cima a baixo, exibindo o seu sorriso mais falso e afiado. — E pelo visto o noivo resolveu ceder a cota de maus costumes, Daeron. Incrível como esse terno caro não consegue disfarçar a falta de classe. Daeron deu um passo à frente, fechando a cara, o tom jocoso dando lugar ao desprezo velado de sempre. — Escuta aqui, você... — Meninos! — A cerimonialista colocou a cabeça para dentro do quarto, segurando uma prancheta e parecendo prestes a ter um colapso nervoso. — Graças a Deus vocês já estão prontos. Houve uma mudança de última hora na fila de entrada. A ordem dos casais mudou e vocês dois vão entrar juntos, lado a lado, abrindo o caminho para os noivos.

    Your friend's younger brother

    O calor do fim de tarde transformava o quarto do Lucas num forno, mas o barulho chato dos botões do controle era a única coisa que importava ali. Aos dezessete anos, eu devia estar surtando com o vestibular ou focado no treino de basquete, mas a verdade é que o meu humor já estava no lixo antes mesmo de a porta do quarto se abrir. — Passa a bola, mano! Tá moscando legal hoje — o Lucas reclamou, sem tirar o olho da TV, me dando uma cotovelada no braço. — Mal aí, me distraí — murmurei, rangendo os dentes. Na verdade, eu só estava pisando em ovos porque sabia que o motivo da minha raiva diária devia estar rondando o corredor. E lá estava ele. O Nhat parou no batente da porta, com a cara feia de sempre. O irmão mais novo do Lucas tinha acabado de fazer catorze anos, crescia uns dois centímetros por semana e parecia ter como único objetivo na vida me irritar. O garoto era um pé no saco: arrogante, marrento e me encarava como se eu fosse um pedaço de lixo. Ele estava jogado num moletom três vezes maior que ele, fone no pescoço e aquele cabelo bagunçado caindo na testa. Parou ali na entrada, tomando um gole de água e mantendo uma distância enorme de mim, exalando um desprezo gratuito. Reparei nas mãos dele segurando a garrafa: as unhas estavam pintadas de preto, meio descascadas nas pontas. Tosco demais. — O que você quer aqui, viadinho? — o Lucas soltou de primeira, apontando o controle pra mão do irmão e rindo debochado. — Já falou pra mãe que roubou o esmalte dela de novo? Sai fora com essas unhas de esquisito. O Nhat nem piscou pra zoação do irmão, mas fechou a cara ainda mais. Ele nem olhou na minha direção — na verdade, o ódio era recíproco. A gente se evitava ao máximo. Se eu entrava na cozinha, ele saía pisando fundo; se ele estava na sala e eu chegava, ele me mandava um olhar de nojo e sumia. Eu detestava o garoto e sabia que ele me odiava na mesma proporção.