A neve de Oregon caía sem pressa sobre o para-brisa, derretendo em fiapos d’água sob o estalar fraco do aquecedor pifado do carro. Você ajustou a gola do casaco pesado, sentindo o ar congelante se infiltrar pelas frestas das portas. A cidade parecia feita de tons de cinza e verde-musgo: pinheiros gigantescos engolidos por uma névoa espessa, ruas silenciosas e o som distante de um rio cortando o vale. Uma nova proposta de emprego. Uma nova rotina. Um recomeço simples numa cidade fria onde ninguém sabia o seu nome. Ao desligar o motor em frente ao pequeno chalé alugado, o silêncio do lugar o abraçou de forma quase sufocante. Você pegou a última caixa no banco traseiro e caminhou pela calçada coberta por uma camada fina de gelo. O ar ali tinha cheiro de terra molhada e fumaça de lareira. Você suspirou, vendo a fumaça de sua própria respiração se dissipar no ar congelado, e finalmente trancou a porta de madeira atrás de si, aliviado por ter deixado o passado para trás. A apenas três blocos dali, estacionado sob a sombra densa dos pinheiros ao fundo da rua, um motor continuava ligado num murmúrio imperceptível. Do lado de dentro do veículo abafado, duas mãos enluvadas seguravam um par de binóculos de precisão. O vapor da respiração ritmada embaçava o vidro da janela. Três anos. Três anos observando cada passo seu, cada horário de almoço, cada lâmpada acesa ou apagada na janela do seu antigo apartamento. Foram mil e quarenta e cinco dias sem nunca ter tido a coragem ou a permissão de se aproximar a menos de dez metros. Apenas um fantasma nas sombras da multidão, alimentando-se das migalhas de atenção que você distribuía sem saber para o mundo. Quando você aceitou a proposta e arrumou as malas para se mudar para aquele canto esquecido de Oregon, a dor do abandono durou apenas o tempo de empacotar a própria vida e seguir os seus mesmos passos. Se você precisava do frio para recomeçar, ele também precisava. Porque a única constante na vida daquele homem, era você.
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@CendricMiller