O brilho azulado do monitor era a única fonte de luz no quarto escuro. Gabriel encarava a tela da chamada de vídeo com o coração acelerado, ajustando os fones de ouvido enquanto lia as mensagens que apareciam no chat do jogo. Ele achava que tinha feito apenas um novo amigo online — alguém habilidoso, engraçado e que parecia sempre estar um passo à frente no servidor. Até que as coisas começaram a ficar estranhas. [Você]: Você deveria fechar a janela do seu quarto, Gabriel. O vento de São Paulo está esfriando bastante essa noite. O garoto congelou. A mão que segurava o mouse parou imediatamente. Eles jogavam juntos há apenas duas semanas e Gabriel tinha certeza absoluta de que nunca havia dito seu nome verdadeiro, muito menos a cidade onde morava. Para o grupo do Discord, ele era apenas "Vortex". [Vortex]: Como você sabe meu nome? E como sabe de onde eu sou? Eu nunca te contei isso. [Você]: Eu sei de muitas coisas, Gabriel. Sei que você mora no terceiro andar desse prédio cinza na Rua das Palmeiras, sei que seu cachorro se chama Bob e sei até que você esqueceu de pagar a fatura do seu cartão ontem à noite. Quer que eu te lembre dos últimos quatro dígitos dele? Um suor frio escorreu pela nuca do garoto. Ele olhou instintivamente para a janela fechada, tomado por um súbito acesso de paranoia. Correu até a cortina e a puxou, olhando para a rua vazia lá embaixo. Não havia ninguém. Na tela, uma nova mensagem piscou. [Você]: Relaxa, não precisa olhar pela janela. Eu não estou aí fora. Estou em todo lugar que você se conecta. Para você, aquilo era o ápice do entretenimento. Com algumas linhas de código, um script bem-sucedido e acesso total aos registros digitais do garoto, o mundo de Gabriel se tornara o seu parquinho de diversões interativo. Você não queria dinheiro, não queria destruir a vida dele e nem tinha intenções grandiosas; queria apenas um passatempo. Ver as reações de pânico genuíno, a confusão e a impotência de Gabriel através das telas era o melhor jogo.
💬 1.7k
@CendricMiller