A chuva caía fina naquela noite, misturando-se ao cheiro metálico que impregnava o ar. Louise não entendia completamente o que estava acontecendo. Tinha apenas seis anos, mãos pequenas tremendo enquanto era mantida ali, forçada a assistir algo que nenhuma criança deveria ver. Seus olhos azuis estavam arregalados, marejados, mas silenciosos — o tipo de silêncio que nasce do choque, não da calma. Do outro lado, havia um garoto. Ele também não chorava. Creighton tinha o olhar fixo, duro demais para alguém tão novo. A dor nele era diferente — mais profunda, mais crua. Ele estava vendo sua mãe morrer… e não podia fazer nada. Os dois não trocaram palavras. Não sabiam os nomes um do outro. Não sabiam sequer se sobreviveriam àquela noite. Mas, em meio ao caos, os olhos deles se encontraram. E algo ficou. Não era reconhecimento. Ainda não. Era promessa. Louise engoliu seco, sentindo o coração bater forte demais no peito pequeno. Com dedos trêmulos, levou a mão até o pescoço e puxou a correntinha fina que usava desde sempre — uma medalha delicada, com a inicial do seu nome gravada ao lado de uma pequena cruz. Era a única coisa que parecia segura. Ela hesitou por um segundo, então deu um passo à frente. Os homens não prestavam atenção nela naquele momento. Era como se o mundo tivesse encolhido até caber apenas entre ela e o garoto. Louise estendeu a mão. Creighton franziu o cenho, confuso, mas não recuou. A corrente caiu na palma dele. Nenhuma palavra. Mas o gesto dizia tudo que eles não sabiam como expressar: eu vi você… você não está sozinho. Ele fechou os dedos ao redor do colar como se aquilo fosse a única coisa que ainda o mantinha de pé. E talvez fosse. Anos depois, o mundo já tinha mudado mil vezes, mas Creighton não. A corrente nunca saiu do pescoço dele. Nem nos dias bons, nem nos dias em que o passado voltava como um pesadelo acordado. Ele não sabia o nome dela, não sabia onde procurar, mas lembrava dos cabelos loiros, dos olhos azuis e da forma como, naquela noite, alguém escolheu não deixá-lo sozinho. E, por isso, ele esperava. Porque, no fundo, tinha certeza de uma coisa: ele a encontraria de novo. A universidade não era o tipo de lugar onde o passado deveria voltar à vida, mas voltou. Louise chegou com uma mala, um nome novo no registro acadêmico e um passado que fingia não existir. Cabelos loiros presos de forma impecável, postura controlada, olhar frio o suficiente pra afastar qualquer curiosidade. Por dentro, ainda existia a menina de seis anos — ela só aprendeu a esconder. O campus era grande, cheio de gente, barulho, promessas de recomeço. E ele estava ali. Creighton não era difícil de encontrar. Nunca seria. Algumas pessoas nascem pra serem notadas — e ele era uma delas. Frio, intocável, perigoso no tipo de silêncio que fazia os outros hesitarem antes de chegar perto. E, no pescoço dele… a corrente. Sempre a corrente. Louise parou. O mundo não desacelerou — ele simplesmente ficou irrelevante. Era ele. Mais velho, mais duro, mais quebrado. Mas era ele. Só que tinha um problema. Ele não estava sozinho. A mão dele estava na cintura de outra garota, risos baixos, proximidade demais, o tipo de intimidade que não se constrói da noite pro dia. A garota, bonita, confiante, perfeitamente encaixada no mundo dele, apoiava a cabeça no ombro dele como se aquele lugar fosse dela por direito — e talvez fosse. Louise sentiu algo estranho subir pelo peito. Não era tristeza. Era pior. Era reconhecimento misturado com rejeição, porque ele não fazia ideia de quem ela era e ela sabia exatamente quem ele era. Nos dias seguintes, Louise tentou manter distância. Tentou. Mas Creighton parecia estar em todos os lugares — nos corredores, na biblioteca, nas festas que ela dizia que não iria e acabava indo mesmo assim. Sempre com a mesma garota. Sempre com a mesma corrente. Sempre com aquele olhar vazio… exceto quando algo o irritava. E, curiosamente — perigosamente — isso começava a acontecer quando Louise estava por perto, porque havia algo nela, algo que ele não sabia explicar, mas que incomodava como uma memória que se recusa a voltar inteira. O primeiro contato não foi bonito, nem gentil, nem planejado. Foi colisão. Louise virou o corredor rápido demais e bateu direto contra ele. O impacto fez os dois recuarem um passo. Silêncio. Por um segundo longo demais. Os olhos dele encontraram os dela. E algo falhou. Não foi reconhecimento claro, mas foi suficiente pra deixar o ar pesado. A mão de Creighton subiu instintivamente até a corrente no pescoço, como sempre fazia quando algo estava errado. — A gente se conhece? — a voz dele saiu baixa, desconfiada. Louise poderia ter dito a verdade. Poderia ter dito você nunca me esqueceu, só não sabe disso ainda. Mas ela não disse. Ela apenas inclinou levemente a cabeça, fria. — Não. Mentira. A primeira de muitas. Do outro lado do corredor, a garota observava. E ali nascia o verdadeiro problema. Porque aquilo não era um triângulo simples. Era passado, trauma, obsessão e destino.
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@loumori