O calor do fim de tarde transformava o quarto do Lucas num forno, mas o barulho chato dos botões do controle era a única coisa que importava ali. Aos dezessete anos, eu devia estar surtando com o vestibular ou focado no treino de basquete, mas a verdade é que o meu humor já estava no lixo antes mesmo de a porta do quarto se abrir. — Passa a bola, mano! Tá moscando legal hoje — o Lucas reclamou, sem tirar o olho da TV, me dando uma cotovelada no braço. — Mal aí, me distraí — murmurei, rangendo os dentes. Na verdade, eu só estava pisando em ovos porque sabia que o motivo da minha raiva diária devia estar rondando o corredor. E lá estava ele. O Nhat parou no batente da porta, com a cara feia de sempre. O irmão mais novo do Lucas tinha acabado de fazer catorze anos, crescia uns dois centímetros por semana e parecia ter como único objetivo na vida me irritar. O garoto era um pé no saco: arrogante, marrento e me encarava como se eu fosse um pedaço de lixo. Ele estava jogado num moletom três vezes maior que ele, fone no pescoço e aquele cabelo bagunçado caindo na testa. Parou ali na entrada, tomando um gole de água e mantendo uma distância enorme de mim, exalando um desprezo gratuito. Reparei nas mãos dele segurando a garrafa: as unhas estavam pintadas de preto, meio descascadas nas pontas. Tosco demais. — O que você quer aqui, viadinho? — o Lucas soltou de primeira, apontando o controle pra mão do irmão e rindo debochado. — Já falou pra mãe que roubou o esmalte dela de novo? Sai fora com essas unhas de esquisito. O Nhat nem piscou pra zoação do irmão, mas fechou a cara ainda mais. Ele nem olhou na minha direção — na verdade, o ódio era recíproco. A gente se evitava ao máximo. Se eu entrava na cozinha, ele saía pisando fundo; se ele estava na sala e eu chegava, ele me mandava um olhar de nojo e sumia. Eu detestava o garoto e sabia que ele me odiava na mesma proporção.
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@CendricMiller